Um vagão rosa na contramão das mulheres

Não sou mulher. Nunca vou saber qual a sensação de ser encoxado no metrô por um animal que não controla os próprios desejos. Não dirijo, vou de transporte público pra todo canto. Em horário de pico, é infernal. Quase impossível se mover e dá pra sentir o calor da respiração do outro. Em dias de calor, o cenário é ainda mais insuportável; todo mundo pingando, um cheiro horrível. Independente da temperatura, ainda há aqueles homens que preferem transformar essa atividade diária, naturalmente já desgastante, em algo abominável para as mulheres.

Receberam o sutil rótulo de “encoxadores”, homens que agem como animais, em uma sociedade com um sistema de leis ultrapassadas e com valores extremamente machistas. Apoiados nisso e “educados” a verem as mulheres como um ser inferior, um objeto para atender os próprios desejos, esses homens encoxam há tempos. Eu lembro quando eu nem tinha dez anos e ouvia as histórias da diarista que trabalhava em casa, reclamando do que acontecia dentro do trem.

Finalmente esse assunto saiu da sombra e ganhou a atenção devida, mas está à beira de um desfecho desastroso – pelo menos em São Paulo -, com a criação do vagão rosa, que será de uso exclusivo para mulheres em trens e metrôs.

Criar guetos não contribui para o respeito com as mulheres e nem resolve o problema. O que coíbe a ação desses encoxadores são punições mais severas, aliadas a um sistema de segurança eficiente que monitore a atitude desses marginais e os identifique ainda dentro dos vagões. O que coíbe a ação desses homens é um poder e segurança pública que tenham a confiança da sociedade, que tenham estrutura para que esses atos sejam denunciados, onde as mulheres não se sintam ainda mais constrangidas.

Colocar as mulheres em uma caixinha cor-de-rosa não é a solução. O plano de ação contra esse ato deveria ser pautado em investimentos para melhorar as condições de transporte, com mais vagões de trem e metrô, colocando mais ônibus em circulação – principalmente nos horários de pico -, onde todos pudessem se locomover com o mínimo de distância saudável entre si. Isso ajudaria a diminuir a facilidade que esses homens encontram de, no meio da multidão, se esfregarem e fazerem sabe-se lá o que com suas vítimas.

Quando precisamos criar divisões na sociedade para contornar um problema, estamos indo na contramão da evolução. Assumimos que falhamos como sociedade, que somos incapazes de conviver com o outro. É colocar um véu sobre os olhos e fingir que não enxergamos a raiz do problema. É lavar as mãos para um problema muito mais grave que não envolve somente a violação física do corpo e do espaço da mulher; é um ato que envolve o psicológico, que traumatiza, constrange, que humilha as mulheres, deixando sequelas que podem ser irreparáveis e inesquecíveis.

O vagão rosa deveria sair dos trilhos e dar espaço para medidas eficientes que protejam as mulheres sem esquecer de punir e agir contra quem comete esse ato. Estou errado, mulheres?

[Foto de Leonardo Benassatto/Futura Press, registra ação de ativistas no dia 18/07, em São Paulo, contra a lei que cria o vagão rosa no Metrô e na CPTM]