A felicidade não é matemática

Robin Williams nunca teve cadeira cativa nas colunas de fofoca, nunca surgiu como uma “pessoa problemática”. Seus problemas pessoais eram tratados – publicamente (o ônus de ser famoso) – com bastante respeito. E, de repente, booom. O mundo é pego de surpresa com o suicídio de um dos homens mais talentosos do cinema.

Ele estava infeliz, não aguentou. Mas nunca apareceu de cara fechada ou brigando com paparazzi. O sorriso era sua marca registrada – tanto em seu rosto quanto no de seu público, como o meu caso que cresci cativado pelos filmes dele. Robin Williams sofria do que chamo vulgarmente de “depressão silenciosa”. Acontece naquelas pessoas que sempre estão rindo, externamente felizes, fora de suspeitas, mas escondem muita tristeza atrás do sorriso.

E o que podemos reaprender com isso? A felicidade não é matemática. Costumamos associar realização pessoal com uma trajetória bem sucedida, com prêmios, com o quanto de bens e inclusive dinheiro podemos acumular. Associamos também com uma boa aparência física. Quantas vezes dizemos “nossa, a pessoa tem tudo: é rica, bem sucedida, bonita e está infeliz, como pode?”. Acontece porque o aspecto material não consegue preencher vazios e resolver questões internas em um nível tão íntimo a ponto de satisfazer a pessoa. Muitas vezes acreditamos que sucesso e abundância financeira vão tapar esses buracos mas, quando atingimos esse patamar, nos sentimos ainda mais frustrados porque o buraco tá ali e, o que achávamos que resolveria, não adiantou. E neste momento, mais do que nunca, é hora de buscar ajuda.

A depressão não escolhe sexo, idade, nem classe social. Todos estão sujeitos por diversas questões. E mais, muitas pessoas estão gravemente deprimidas e não sabem disso. Por isso é muito importante estarmos atentos a nós mesmos e a quem está ao nosso redor – às vezes, a pessoa mais feliz do seu lado, também não esteja aguentando mais.

Existe uma ONG – uma das mais sensacionais que conheço, inclusive – que se chama Pensamentos Filmados, fundada pela auto-entitulada sobrevivente e admirável (esse é por minha conta) Ana Maria Saad. Através de vídeos curtos com uma linguagem feita pra que todo tipo de público possa assistir e entender, são apresentados diversos transtornos (palavra forte, mas cabe aqui) emocionais e psicológicos, com grande foco pra depressão. O vídeo do post (lá em cima), um dos meus favoritos da ONG, é o depoimento pessoal e sincero da própria Ana, realizado durante palestra no TED talent search que aconteceu em SP em 2011.

Se você se identificou, procure ajuda. Se você identificou os sinais em alguém que você ama, gosta, alguém do seu cotidiano, enfim, não apenas diga “você precisa de ajuda”. Quem está com problemas, e muitas vezes relutante em aceitar a própria fragilidade, odeia ouvir esse tipo de coisa. Então, seja o caminho para que essa pessoa encontre ajuda – seja compartilhando o trabalho da Pensamentos Filmados, seja servindo de um ombro amigo, ou até mesmo acompanhando ao consultório pra primeira consulta terapêutica. Enfim, se ajude e ajude! Não podemos salvar ninguém mas com um empurrãozinho (ou até dois, três), podemos servir de ferramenta para que o outro encontre seu caminho e se salve antes que seja tarde demais.

Robin Williams [21/07/51 - 11/08/2014]

  • Luciano de Godoy

    Texto fascinante. Parabéns!

  • Michele Ribeiro

    Parabéns pelo texto, vai ajudar muita gente!

    • Antonio Marcello

      Muito obrigado Michele! Torço que ajude sim. 🙂

  • ilza

    Parabéns pelo texto que diz tudo que cada um de nós que tem, transtornos da mente ,gostaria de dizer.
    Você é nossa. voz.Bjos

    • Antonio Marcello

      Muito obrigado Ilza! Fico feliz em ajudar 🙂