Selfie-se quem puder

Já percebeu que logo no título da matéria fiz um trocadilho péssimo né? Tudo pra (tentar) ser engraçado, um dos mandamentos pra fazer sucesso na internet.

Além de ser engraçado, a gente precisa ser rico, feliz, inovador, frequentar lugares “foda” antes que sejam ultrapassados, usar as roupas ditadas pelos blogueiros de plantão, ter um corpo, pele e corte de cabelo perfeitos, além da velha opinião formada sobre tudo. Na verdade você não precisa ser nada disso, basta fingir e pronto.

O que importa hoje é quem você é através dos seus perfis sociais. Posto (do verbo postar – recém incorporado pela língua portuguesa – e não de posto de gasolina), logo existo – em breve substituirá a grande citação de Descartes. Não sabe? Joga no Google. Por último, mas muito importante: jamais pense em falar sobre tristezas, problemas e dificuldades; isso é um crime digital e nunca se sabe quando vai surgir um pseudo-psicólogo com a recomendação “você precisa procurar ajuda”.

Vixe (ou Vish?), esse post tá ficando muito chato. Igualmente chato quanto viver em uma época onde o nosso perfil social fala mais alto do que nossa individualidade. No Instagram todos são lindos e estilosos, no Facebook divertidos, com checkins em restaurantes incríveis (com a comida esfriando, tudo em prol do selfie pré-garfada) e críticos de todos os assuntos. Cadê selfie com a cara amassada? Cadê checkin no Brás comprando jaqueta de ‘couro’ no saldão (no Centro não tem sale, sorry)? Vamos em frente.

Em breve os smartphones devem fazer parte da evolução genética e surgir como um membro nos corpos das futuras gerações. “Você está grávida, de um menino com iPhone X”. A vida digital, que deveria ser uma extensão de quem somos, redefiniu o jogo e se tornou protagonista. Sim, daquelas de cinema, que vivem personagens que não são reais. E com isso começou a contaminar todas as relações. Sua amizade existe enquanto vocês forem amigos no Facebook, independente do zero contato real que tenha. E isso não acontece apenas em relações longas não. O fato de você aceitar uma solicitação de amizade ou seguir um total estranho em qualquer rede social, faz com que as vidas de ambos sejam automaticamente integradas, virando os novos best friends forever da última semana.

E essas amizades se tornam complicadas. Elogiar alguém pode parecer que você tá dando em cima – não dá mais pra ser legal hoje em dia, tem que querer “comer” (tô sendo vulgar? I beg your pardon). Perguntar “Está tudo bem?” para alguém que você não fala por dias, pode soar como cobrança. Falar muito pode parecer que você está apaixonado. Então, que tipo de relacionamento é construído na geração pixels? Não sei.

Hoje vejo apenas uma utilidade nas redes sociais: facilitar a comunicação com quem eu já conheço, e olha que até nesse aspecto tudo parece estranho, já que ver os posts dos seus amigos/parceiros/familiares/colegas/etc cria uma falsa sensação que todos estão próximos e um acompanha a vida do outro, mas não funciona bem assim. Existem até duas síndromes batizadas para esses casos que se chamam mais ou menos assim: o “Medo de Ficar de Fora” e o “Medo de Perder Algo”. Joguem no Google. A grande questão é que todos os tipos de relações estão sucubindo pela urgência e plasticidade que a tecnologia empregou em tudo e, daí, vem a condenação fatal: deletar e bloquear.

Infelizmente, na realidade não tem os botões “cancelar amizade”, nem “bloquear”, muito menos “parar de seguir” – já pensou que delícia seria poder dar unfollow naquelas pessoas com piadas imbecis que temos que ouvir diariamente na nossa família, escritório ou onde temos alguma rotina social? Pois é, não dá. Então a gente tem que engolir o sapo e ficar na nossa. Mas na internet tudo é possível. Somos fortes e poderosos escondidos atrás de um avatar. Falamos o que queremos e que se dane o outro. Deletamos mas não aceitamos quando somos deletados. “Como assim você parou de me seguir no Instagram?”. Ué, simples, não queria mais. Saber que você se tornou invísivel para alguém, di-gi-tal-men-te, é quase a morte. Talvez pior que isso seja só o aviso “mensagem visualizada” mas sem resposta.

Estamos na era onde a rejeição não é aceita, onde o silêncio não tem espaço. “Como assim, eu que sou tão legal ser excluído? Como assim, não me responde?”. Acontece, meus caros, acontece. Psicólogos, psiquiatras e gastros agradecem. É a geração com o ego construído em pixels, morrendo de ansiedade por um like, por um reconhecimento e números crescentes nas redes sociais. Salve-se quem puder. Não estamos usufruindo da tecnologia, estamos nos tornando digitais, seguindo convenções e regras para se adaptar a um meio que sequer é real. E no final do dia, o que ganhamos com isso? Nada.

Mas isso pode ser apenas uma análise equivocada de um cara beirando os 30 anos, sobrevivendo à não contaminação de um padrão digital e bem longe dos esterótipos de sucesso nas redes sociais. Pode ser um tremendo recalque (beijinho no ombo, ok, aceito) ou pode ser que eu esteja certo. Não sou contra os meios digitais, porque inclusive minha carreira profissional é construída na internet, mas sou contra a padronização da nossa individualidade, personalidade e pensamentos. Vamos ver por quanto tempo eu sobrevivo. Nunca se sabe quando o vírus da duck face vai me contaminar.

  • Luciano de Godoy

    Um dos melhores textos que li nos ultimos tempos. Parabens!

    • Antonio Marcello

      Muito obrigado! 🙂

  • Sabrina De S. Miranda

    mto bom, compartilhado!!

    • Antonio Marcello

      Obrigado Sabrina! 😀