Você está sendo manipulado e condicionado a não pensar nisso

Imagine uma sociedade onde somos divididos em castas. Onde não precisamos mais do sexo pra reproduzir, já que os bebês são gerados em laboratórios com um vasto estoque de espermatozóides e óvulos congelados. Imagine que essa sociedade é essencialmente dividida entre dois grupos: (1) os bebês que desde à infância foram condicionados a sentirem apenas prazer, com acesso vasto a uma infinidade de informações e com a possibilidade de tomarem uma pílula pra eliminarem suas tristezas ou pararem de sentir o amor; (2) do outro lado, os bebês que são cruelmente condicionados a serem burros e comandados, sendo submetidos desde os primeiros anos a pequenas doses de choque quando decidem se aproximar de livros e flores, os fazendo crescer com total repulsa a tudo que há de belo, e a tudo que possa lhes oferecer conhecimento.

De grosso modo, essa é a sociedade apresentada por Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo”. Lançado em 1932, a obra é atemporal e, em períodos de Eleições ou de grande fervor social, deixa bem claro o quanto a ficção representa a realidade. Behaviouristas já defendiam: nós somos condicionados, consequentemente, manipulados. A diferença é que a ficção evidencia isso, mas na sociedade, nós não podemos sequer pensar isso ou vamos nos desconectar da Matrix.

Do último domingo (5) pra cá, o Brasil foi dividido em duas castas: a de “nordestinos miseráveis” e a de “paulistas burgueses”. Não fomos condicionados a tal e nem ouve uma declaração oficial que marcasse uma divisa no país. Foi o discurso individual, impulsionado pela força das redes sociais – que já discursei bastante em outro post aqui – que transformou brasileiros independente de ricos e pobres, paulistas ou nordestinos, aderirem à bandeira da ofensa para defender seus candidatos políticos. De um lado do ringue, os PTralhas representam os nordestinos miseráveis, do outro lado os Coxinhas Reacionários representam os paulistas burgueses.

Reparou que reforcei o uso das expressões que estão bombando nos discursos pra todo lado que se lê? Acredito que reforçar algo é como ler uma palavra repetidas vezes: você começa a ouvir, assimilar e de repente algo que você sempre escreveu ou falou, parece que começa a soar errado.

A discussão do futuro do país foi reduzida à ignorância. A partir do momento que recorremos à ofensas e ficamos reproduzindo os títulos de matérias que lemos sem raciocinar, estamos levando o país e nossa sociedade para o buraco. Uma discussão que deveria ser ampla e saudável, onde ambos os lados – sem rótulos geográficos ou de classes sociais – pudessem dialogar, apresentar suas propostas e pontos de vistas, se transformou num campo de guerra onde respeitamos a opinião do outro, contanto que ela represente a nossa. E se você não tiver a mesma opinião que a minha, ou você é um nordestino miserável, ou um coxinha reacionário paulista. Patético, patético, patético.

Todos, de repente, se transformaram em supremos conhecedores de política, economia, sociologia e psicologia. Os números estão rolando solto. Pra uns a inflação tá sob controle. Pra outros não. A miséria acabou. Mas uns dizem que não. Tóma aqui mais números de sei lá de onde que saíram pra você engolir de uma vez por todas “as minhas verdades”. E estamos, reproduzindo, que nem marionetes, o que ouvimos por aí e que a maioria, a imensa maioria, não entende de fato.

E se eu disser que isso tudo que está acontecendo é intencional? E se eu te disser que todos nós fomos condicionados a nos separar, que essa discussão que divide as pessoas, é proposital? E se eu disser que é conveniente que “nordestinos” e “paulistas” estejam em guerra? Independente de quem estará no poder, seja esse ou aquele candidato, somos nós como sociedade que temos que agir como sociedade. Somos nós que devemos exercer nosso direito de cidadão e cobrar as autoridades que vamos colocar lá quando corrompem a ordem pública e zombam do povo. Mas como podemos cobrar dos nossos representantes uma postura honesta, como podemos exigir nossos direitos se nós, em nossa individualidade, não conseguimos dialogar e respeitar uma opinião divergente?

Acredite, você foi manipulado e condicionado a viver dividido, culpando um alguém externo. Uma sociedade dividida, é muito mais fácil de ser manipulada. E isso independe do partido político. Nenhuma sociedade foi ao buraco por ser unida, muito pelo contrário. É através da desordem e das diferenças, que derrubamos a nós mesmos. Quer dar o passo além e começar a pensar com sua própria mente? Olhe criticamente toda informação que chegar até você ao invés de absorver por osmose e compartilhar que nem robô. Você tem um cérebro e uma identidade própria. Pense, reflita, pense mais um pouco e trate as pessoas com o respeito que você gostaria de ser tratado. Não é na urna eletrônica que exercemos nossa cidadania; é no dia a dia. E nós, brasileiros, deixamos bem claro nos últimos dias o quanto somos péssimos como sociedade. Mas você não precisa acreditar e nem concordar com nada disso; vai que eu também estou tentando te manipular?