Em um segundo, a vida inteira muda

Eu já quis casar, de terno e gravata, em uma cerimônia milionária com direto à Florence and The Machine. Um dos meus maiores desejos de consumo era ter um Mini Cooper, com adesivos da bandeira da Inglaterra no retrovisor. Por muito tempo quis ser o melhor em tudo, o mais inteligente e ser idolatrado como alguém especial. Já investi em vários amigos, pra ter uma casa cheia de gente e sempre em festa. Também já lutei pra ter uma família grande e unida, e acreditei que isso era possível. Quando me perguntavam, “como foi sua infância?”, eu não sabia responder pois lembrava poucos flashes antes dos cinco anos de idade, mas paguei um preço alto por depois de 23 anos, descobrir parte da minha história que deveria ter sido esquecida no tempo. Perdi pessoas que eu amo por não ter coragem de dizer a verdade pra elas, por ter escolhido o silêncio e, em alguns casos, mentir. Diversas vezes, acordei de madrugada e me sentia tão sozinho a ponto de abraçar o edredon com toda força do mundo; eu precisava sentir algo. Mas mesmo assim, eu ainda tentava salvar o mundo, tentava ser o psicólogo de todos, amigos e estranhos. Eu achava que estava no Top 10 das melhores pessoas do mundo, que eu era infalível, que eu não tinha defeitos. E por me achar tanto, eu esperava ansiosamente por festas surpresa de aniversário para me sentir especial pelo menos uma vez por ano. Imaginava que com 30 anos eu teria minha casa, estaria casado, com uma carreira na capa de revistas, rodeado de vários amigos de longa data e que isso me faria completo.

Hoje eu chego aos 30 anos. Hoje só quero um amor sincero e de coração aberto ao meu lado; pode ter umas declarações no meio – aquecem a alma. Já abri mão de querer um carro e estou felizão com minha bike. Parei de me cobrar perfeição e agora só tento ser o meu melhor dentro do que posso. Minha inteligência foquei em ajudar as pessoas a encontrem o que há de especial nelas. Desisti de muitos amigos ou de promessas de amizades para sempre; prefiro poucos amigos, bem poucos que talvez nem completem os dedos de uma mão, mas que estejam do meu lado pra acrescentar e não com interesses em sua maioria unilaterais. Paguei um preço alto por conhecer minha história a fundo, por me conhecer a fundo, mas fiz as pazes com meus demônios; eles continuam aqui dentro mas sei como controlá-los e, conseguir assumir o domínio de sua própria vida, é libertador. As pessoas que perdi, sempre lutarei por elas, pois prefiro não mentir pra mais ninguém, prefiro não recorrer mais ao silêncio quando eu estiver com medo; requer mais coragem contar verdades incontáveis mas dói menos, muito menos do que a saudades que aperta no peito, desejando abraços que não serão mais dados. Aprendi que família só é formada por valores em comum, e não pelo mesmo sangue. Hoje passo a maior parte do tempo sozinho, e muitas vezes percebo que é fundamental ter momentos exclusivamente meus. Continuo tentando salvar o mundo mas sei da importância de me salvar primeiro, me amar primeiro, pra conseguir salvar quem chega até mim em busca de ajuda. Também sei que sou bem pior do que eu imaginava, mas muito melhor do que um dia eu já fui. Me conhecer tão bem, faz com que eu não aceite mais ser especial apenas no meu aniversário, eu quero durante 365 dias por ano; 366 em anos bissextos. Todos nós somos especiais e todo dia devemos ser tratados assim.

Hoje eu faço 30 anos e estou satisfeito em ver que a gente muda, satisfeito em perceber que é fundamental deixar velhos hábitos, vontades e desejos pra trás pois assim abre espaço para o novo. Hoje consigo ser feliz, mesmo sem uma lista de metas cumpridas, mesmo com sonhos ainda não realizados, mesmo sem seguir convenções e padrões que um dia foram definidos como certeza de felicidade. Hoje me sinto realizado pois despertei para mim mesmo, e essa é uma luta – e, consequentemente vitória -, exclusivamente minha.

Mas mudar não foi em um piscar de olhos. O processo começou em abril de 2013, quando ultrapassei a fronteira do meu passado e percorri os caminhos mais escuros e obscuros que poucos ousariam imaginar. Depois de muita luta e foco pra não me desconectar de mim mesmo, posso dizer que apenas há poucos meses que me sinto aliviado e em paz por aprender que em um segundo, a vida inteira muda, mas sempre há tempo suficiente pra encontrar o caminho de volta, sempre há como lutar pelo que há de mais valioso. E todos os dias, como nunca na minha vida, eu posso dizer que estou satisfeito pois tudo que fiz e faço é com todo meu amor. Não há erros impossíveis de serem corrigidos, nem culpas sem perdão, nem mágoas que sejam eternas. A vida é uma sequência de desafios a serem enfrentados, sem mocinhos, sem vilões. Somos todos luz e sombra e encontramos paz ao estabelecer o equilíbrio entre forças tão distintas que correm dentro de todos nós, o tempo todo, sem exceção. E diante de tanto aprendizado, sorte e presentes que a vida me deu, hoje eu renasço para mais um ciclo, e nunca foi tão bom estar vivo.

Little darlin’ its been
A long cold and lonely winter
Little darlin’ it feels like
Years since you’ve been here

Here comes the sun little darlin’
Here comes the sun
I say, “It’s all right, it’s all right
(The Beatles)

  • Elaine Oliveira

    Encontrei hoje seus textos, gostei muito das reflexões e disposição para abertura. Esse texto particularmente me tocou, parabéns e obrigada pela escolha de compartilhar sentimentos e pensamentos

    • Antonio Marcello

      Olá @disqus_SyojWpBKWk:disqus. Sou muito grato ao Draft por ter permitido que eu chegasse a tanta gente. Esse é um texto bem íntimo mesmo mas tenho certeza que são questionamentos comuns pra tantos né? Obrigado pelo carinho e por ter se identificado. Criei o Despertarium pra que seja um espaço de reflexão e fico muito feliz que você encontrou aqui algo que tenha te tocado! Um grande abraço.

      • Elaine Oliveira

        Sucesso para você com seus projetos .