Um ano, sete meses e sete dias

Há três semanas, fiz um bate-volta no Rio. O objetivo era visitar um casal de amigos que são como minha família, mas também prestigiar duas atrizes talentosas e que, um dia, fomos para sempre. Era a minha grande meta antes de completar os 30 anos: estar à frente de duas das pessoas que mais amei em minha vida, mas que infelizmente não dividimos mais a vida juntos. Os motivos reais da ruptura? Um dia eu conto mas adianto que foi uma sucessão de descobertas e erros, chegando àquela hora perigosa. Aquele momento em que você fracassa e o tempo é cruel o suficiente pra não conseguir estabelecer mais a conexão, não conseguir mais manter vivo o que é de valioso, causando rupturas inimagináveis e dores maiores ainda. Aquele momento em que você se olha por dentro, por fora, pega o celular, treme, o coração acelera e você pensa “eu não acredito que isso está acontecendo comigo”. Aquele momento em que você está tão atrapalhado, que escolhe caminhos mais conturbados ainda e, de repente, sim, tudo acaba.

Mas mesmo assim peguei o avião e fiquei seis horas esperando para assisti-las. 15 minutos antes de começar, o coração começou a se fazer cada vez mais presente. Enfim, a peça começou. Quando as cortinas abriram, eu chorei. Fazia um ano, sete meses e sete dias, que minha vida tinha virado de ponta cabeça e pensei, “quanta coisa eu perdi nesse tempo em que eu estava me colocando de volta no lugar”. E estar de volta ao meu lugar, sem ter ao lado as pessoas que estiveram ali e faziam sentido e sentir pra mim, não fazia muito sentido. Um buraco fica sem ser preenchido. É um vazio estranho que não se explica.

De uma certa forma, poder estar ali, prestigiando a carreira delas que eu acompanhei parte do nascimento, tinha um lado egoísta pois era como se por alguns momentos eu pudesse reviver algo que já existiu. Poucas horas antes da peça, enviei três girassóis ao camarim, acompanhados de um cartão onde eu afirmava que independente das rupturas, eu senti em meu coração que deveria prestigiá-las. A simbologia dos girassóis? Além da obviedade de ser três, representando cada um, é a simbologia da flor que busca constantemente pelo Sol. E quem mais procura tanto a luz, quem mais busca tanto brilhar do que os artistas e sonhadores? E eu estava ali, sonhando. É claro que eu tinha esperanças de um contato! É claro que eu esperava uma mensagem de “ficamos felizes que você veio”. Eu estava esperando algo que um dia já existiu. Mas não existiu naquela noite, nem na seguinte e nem nas semanas seguintes.

E porque depois de quase um mês decidi falar a respeito? Porque somos burros. Nós temos a mania de correr atrás do que perdemos, ao invés de valorizar enquanto está ao nosso lado. Temos a péssima mania de culpar o outro pelas nossas deficiências. Mentimos para não assumirmos fraquezas. Fingimos que somos fortes para não ficarmos vulneráveis. Cobramos quando não temos mais direito de cobrar. E nesse processo de quase auto-sabotagem, acabamos – sem perceber – abrindo mão de quem é mais valioso. Viramos um fantasma inconveniente tentanto reviver algo que não existe mais. E todos saem perdendo pois em relações que se quebram, não existem vitoriosos; todos são perdedores e ponto final.

De alguém que viu a vida inteira se desfazer e voltou ao lugar, só tenho uma coisa a dizer: se você vai passar pelo inferno, segure a mão dos seus amigos. Convide para fazerem parte daqueles momentos que você acha que ninguém estará do lado. Não tenha medo de pedir ajuda, nem nos piores momentos. Seja honesto e prefira a verdade ao silêncio. Amigos de verdade, vão te entender e estarão do seu lado se você não fechar as portas. Perceba e pratique isso antes que a cortina se feche para o último ato porque, afinal de contas, um dia todo mundo cansa.