O silêncio que grita

Dizem que devemos sempre expressar como nos sentimos e sou o maior defensor disso. Geralmente, associamos expressar com falar, escrever, se manifestar de alguma forma com sons, voz e linguagem. E o silêncio?

Quantas vezes não vemos um filme, onde há uma cena tão tensa, acompanhada de um silêncio tão grande, onde uma gota d’água caindo soaria como um enorme estrondo? O silêncio é uma escolha, mas também uma reação. Ambas, formas de expressão legítimas e cheias de significados que nem sempre tomamos o cuidado necessário de entender.

Em um nível mais simples, receber uma mensagem, ler e não responder, é uma resposta: estou te ignorando – ou, pra diminuir o nível de dramaticidade -, você não é prioridade, logo não tenho interesse em responder e prefiro ficar quieto. Há também o silêncio mais intenso e complicado, de quem optou por se silenciar depois de tentar por diversas vezes e ser censurado, por perceber que se expressar é nocivo e gera atritos, por perceber que era mais querido em silêncio do que expressando o que sentia. Neste caso, é um silêncio dos que considero mais perigosos pois é o silêncio do “desisto”. Afinal, qual relação – seja de amizade ou afetiva – se sustenta quando não há respeito para o diálogo verdadeiro e saudável entre ambos os lados?

O mais lastimável é que este silêncio gera no outro lado a sensação inversa, “ufa, consegui provar que tenho razão” ou, pior ainda, “consegui provar que não tenho interesse em ouvir ou respeitar uma opinião diferente e, muitas vezes, contra a minha”. É nessa hora que, sem perceber, uma relação começa a entrar em processo de luto. Sim, pode soar exagerado mas a psicologia defende: todos nós, para encerrarmos qualquer tipo de relação, precisamos passar por um processo batizado de luto.

Comece a perceber o silêncio interno e ao seu redor. Quando escolher não dizer algo, quando escolher não ouvir algo, quando assumir que o silêncio é a melhor escolha… Todas essas e infinitas manifestações de silêncio são mensagens. E com essas mensagens nos comunicamos com as pessoas ao nosso redor, as pessoas que nos relacionamos e, consequentemente, fazemos escolhas com a linguagem que adotamos.

Escolha bem qual silêncio você quer enfrentar. Talvez o silêncio do outro, simbolize que você está perdendo uma pessoa importante na sua vida. Talvez o seu silêncio esteja gritando que é hora de desistir de algo que já não funciona mais.